14 de dez. de 2009

Análise de imagem Aula 8a

Reconhecimento e rememoração

Segundo E.H. Gombrich, a imagem tem também como função primeir
a, assegurar, fortalecer, consolidar e precisar a nossa relação com o mundo visual. As imagens desempenham um papel de descoberta do visual. Gombrich propõe duas formas principais de investimento psicológico na imagem: o reconhecimento e a rememoração.
Esta abordagem do espectador consiste, antes de mais, em tratá-lo como um parceiro activo da imagem, emocional e cognitivamente.

Reconhecer algo numa imagem significa identificar, mesmo que parcialmente, o que nela se vê com algo que se vê ou pode ver no real. A constância perceptiva, tal como acontece no mundo visual em geral, é o que nos permite aceder às imagens e percepcionar as imagens, é a comparação incessante que fazemos entre o que vemos e o que já tínhamos visto.
Não só somos capazes de reconhecer os objectos representados, mas de os identificar, apesar das distorções que lhes possa causar a reprodução pela imagem.



Giuseppe Arcimboldo, Spring, 1573
Graças à constância perceptiva reconhecemos o rosto representado, mas no caso da caricatura, é preciso supor que convocamos outros critérios.
O caricaturista capta invariantes do rosto, que poderão funcionar como índices de reconhecimento.
Reconhecer o mundo visual numa imagem pode ser útil, e proporciona igualmente um prazer específico.
Uma das razões essenciais do desenvolvimento da arte representativa, mais ou menos naturalista, provém da satisfação psicológica implicada no facto de “reencontrar” uma experiência visual numa imagem, sob forma ao mesmo tempo repetitiva, condensada e domináv
el (para Freud, “reencontrar o conhecido”, unir o “desconhecido ao conhecido” é, de maneira geral, um dos mecanismos maiores de obtenção de prazer).
O reconhecimento não é um processo de sentido único; a arte representativa imita a natureza, e essa imitação provoca em nós prazer: quase dialecticamente ela influi sobre a natureza, ou pelo menos, o modo como a vemos.

John Constable, The Helmingham Dell, 1825-26 Óleo sobre tela, 70.8 x 91.4 cm
Philadelphia Museum of Art

O reconhecimento que a imagem artística promove participa do conhecimento; mas encontra também as expectativas do espectador, podendo trasformá-las ou suscitar-lhe outras.
A rememoração refere o modo como reconhecemos elementos inerentes apenas ao universo das imagens, utilizando um tipo de reconhecimento apenas quanto às estruturas da imagem. O papel do espectador torna-se assim activo na construção dos significados da imagem. De certo modo é o espectador que a faz existir.
Gombrich em A Arte e a Ilusão (1956), defende a ideia de que não existe tal coisa como um “olhar inocente”. A percepção visual é um processo quase experimental, que implica um sistema de expectativas, com base nas quais se emitem hipóteses, que são confirmadas ou desmentidas.
Esta expectativa remete para a ideia de que ver só pode ser comparar aquilo que esperamos com a mensagem que o nosso aparelho visual recebe.
Ao fazer intervir com o seu saber prévio, o espectador supre o não representado. Isto é, aplica à imagem informação que ela pode não conter. Gombrich defende esta ideia e afirma que uma imagem não pode representar tudo.
O papel do espectador é projectivo; a nossa tendência é a de identificar seja o que for numa imagem, desde que a forma se assemelhe minimamente a qualquer coisa. Segundo esta abordagem, o espectador exerce sobre a imagem uma combinação entre reconhecimento e rememoração.
Através da articulação entre estes dois mecanismos, o espectador faz a imagem.




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